Toco y no me voy

neymar

Seleções como Espanha e Camarões levaram uma sacola recheada de gols na volta para casa. E a verdade é que a Copa dos muitos tentos se foi com essas e outras seleções que caíram na primeira fase. Continua sendo um torneio deliciante como a nega de Jorge Ben, com sangue, suor, pênaltis, tieta e quetais. Porém, o que me chama atenção é a falta de produção ofensiva coletiva nas quatro gigantes que sobreviveram.

Estamos tendo mais uma Copa dos craques que das seleções. Talvez pela certeza de que Robben, Messi e Neymar vão resolver – ou pela falta de outras opções – os treinadores mais bem-sucedidos têm apostado em fechar a casinha e jogar a bola em quem resolve, o que, até determinado momento, deu certo. Quando o craque não resolve, tem aparecido muito a bola parada. Foi assim que o Brasil fez seus três últimos gols e a Alemanha se garantiu contra a França. Os craques, por sua vez, resolveram na arrancada de Messi contra a Suíça para a conclusão de outro craque, Di Maria. Mesmo que discutivelmente, Robben acabou com a agonia holandesa diante do México em uma arrancada absurda. Jogadas muito mais de talento individual que de coletivo.

Em 2010, ao contrário, tivemos a Copa marcada por dois grande times, acima de tudo. A Espanha com seu toque de bola lento, que irritava o espectador e o adversário até cansá-lo, para matar o jogo em um a zero (teve média de apenas 1,15 gol por jogo); e a Alemanha com uma ideia parecida mas muito mais dinâmica e menos aborrecida, chegando a tocar quatro gols em Inglaterra e Argentina. Naquele momento, a Espanha levou a melhor, mas quando os dois estilos se confrontaram de novo entre clubes, os alemães acabaram suplantando o tiki taka.

Por mais que Louis Van Gaal seja incensado, a Holanda de Bert Van Marwjik já tinha o mesmo estilo de jogo que os laranjas aplicam atualmente. Um dos volantes virou zagueiro, mas isso não é o mais importante. Eram Van Bommel e De Jong distribuindo porrada no meio-campo, zagueiros altões e desengonçados na defesa (antes dois, agora três), e o trio Sneijder, Robben e Van Persie resolvendo tudo sozinho (assessorados outrora por Kuyt, hoje por Depay), o time não se soltava ao ataque para ajudá-los. A diferença para melhor da atual seleção é Robben, que, quatro anos depois, é muito mais jogador. Sneijder, por sua vez, é o ponto baixo, com apenas alguns lampejos da grande atuação de quatro anos atrás.

A Holanda é um time amarrado para propor o jogo, que escolheu dar a bola até para Chile e Austrália e se embananou contra os dois adversários da Concacaf nos mata-matas, quando se viu impelida a sair para o jogo. Por outro lado, seu jogo pouco participativo proporciona segurança defensiva. Basta ver que nos quinze minutos de prorrogação em que Van Gaal tirou um dos zagueiros e colocou Huntelaar contra a Costa Rica, a equipe latino-americana quase venceu o jogo nos contra-ataques. A segurança excessiva parece, portanto, uma opção. Se tenho Robben (ou seria Krul?) para resolver, para quê formar um time desenvolto no ataque e correr riscos, é o que pensa o arrogante treinador saxão.

Foi exatamente o que pensou Alejandro Sabella sobre Messi, Di Maria, Higuain e Agüero (ou Lavezzi). Com um quarteto desse teria como fazer a Argentina jogar um futebol exuberante, mas o foco de seu trabalho é garantir solidez defensiva e deixar que os craques resolvam. A Argentina tem um problema histórico. Há vinte anos não forma bons jogadores de defesa, coincidentemente o mesmo período em que não ganha um título sequer. Na frente, há talento de sobra e eles que se virem, o importante é garantir a defesa e isto vem sendo feito, com nenhum gol sofrido contra dois adversários bem razoáveis como Bélgica e Suíça.

No caso do Brasil, me parece que a dependência de Neymar não tenha sido premeditada como fizeram Holanda e Argentina. Até porque ela poderia não bastar. Neymar não tinha assessores de luxo, como Robben tem com Van Persie e Sneijder, e Messi com Di Maria, Higuain, Lavezzi e Agüero. O ideal era ter jogadas trabalhadas, mas não simplesmente não havia de onde tirá-las. Neymar e Hulk são carregadores de bola e Fred um finalizador. Oscar fica sozinho e não tem característica para jogar assim. O Feto é mais inteligente do que habilidoso. Ele sabe tocar a bola e se deslocar para receber de novo na hora certa, mas não sabe esconder a bola, ditar o ritmo do jogo, tirar um coelho da cartola e colocar um companheiro na cara do gol. É jogador de tabela e precisaria de companhia para jogar, o que não vem ocorrendo.

O Brasil pagou por não jogar as eliminatórias e ter feito uma Copa América tosca em 2011. Sobrou só a Copa das Confederações para ajeitar o time. A primeira formação que deu certo nunca mais foi alterada, até a Copa do Mundo dizer “oi, eu não sou a Copa das Confederações”. Naquela competição, um dos trunfos do Brasil era a chegada de Paulinho, praticamente lado a lado com Oscar. Hoje, nenhum volante se arrisca a chegar à frente constantemente, talvez porque a pressão do torneio seja muito maior. Fernandinho o fez num facílimo segundo tempo contra Camarões. Quando a cobra fumou, no jogo seguinte, se resignou a marcar. Por carecer de criação é que o Brasil joga melhor quando consegue marcar pressão. A grande atuação de Oscar, contra a Croácia, foi o jogo em que Neymar centralizou várias vezes para tabelar com ele. Em quase todos os bons lances de Oscar no jogo, há a participação de JUNIOR, sempre bem perto, para toques curtos. Felipão parece que não sabe um dos motivos pelos quais venceu aquele jogo. Como parece ter tido um LAPSO e esquecido a marcação pressão da Copa das Confederações, só retomada com afinco na última partida.

A Alemanha, por sua vez, segue sendo a equipe mais coletiva. São vários bons jogadores, todos adeptos do jogo coletivo, e nenhum que se destaque demais sobre os outros. Müller é o cara que resolve, mas resolve o fim da jogada, não faz início, meio e fim sozinho como são capazes Robben, Messi e Neymar. Mas se as outras seleções têm dependido dos craques ou da bola parada, a Alemanha tem ficado muito é com a bola parada e com contra-ataques. Seu belíssimo jogo coletivo demonstrado em 2010 não deu as caras no Brasil, ao contrário do Instagram de Podolski.

De qualquer maneira, alguma seleção muito forte vencerá a Copa do Mundo, embora não encantadora. E aqui não faço juízo de valor, é apenas uma análise. Futebol é um jogo, acima de tudo. Há que se jogar para ganhar. Jogar bonito é um segundo passo, quando possível e, na maioria dos casos, não é. Porém, se os quatro semifinalistas jogassem mais soltos e envolvessem os adversários teriam chegado com mais facilidade até aqui. Ou então a Costa Rica encaixaria um contra-ataque; De Bruyne marcaria um gol; Benzema e James Rodriguez se consagrariam. Jamais saberemos. O que importa é que chegaram até aqui. O toco y no me voy para receber foi vitorioso.

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